Lanço aqui um desafio à minha turma de metodologia das ciências sociais do curso de doutorado do PPGS: utilizar a lógica de Heinrich Rickert, em particular sua teoria da formação de conceitos, para dar conta de algumas das habilidades e dificuldades de Stephen Wiltshire. Suas concepções de lógica, conhecimento (Erkenntnis), categorias, conceitos, forma, conteúdo, valor, dentre outras, devem ser mobilizadas. Semana que vem debatemos com base nos textos selecionados para a aula. Se tudo correr bem, talvez alguém se anime a escrever um texto e publicá-lo por aqui.
Cynthia
"Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate": Isso é um blog de teoria e de metodologia das ciências sociais
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
A Natureza do General McArthur (texto já publicado no Cazzo não sei bem quando)
Você quer saber o que é real, meu filho? Pula do vigésimo de cabeça na esperança de que tudo seja construto social para ver... Tenta comer um cento de manga-espada no intervalo de uma hora para ver o resultado... Come todos os quitutes - "passarinha", um delicioso "figado de alemão" - no Bar do Bigode e procura sustentar com o máximo de coerência que essa estória de disenteria é algo cultural... Procura fecundar teu parceiro gay e espera nove meses... O(A) leitor(a) vai desculpar a qualidade dos exemplos, mas grosso modo é deste tipo de argumento que nos valemos sempre que procuramos, eu e meu amigo, o general McArthur, pôr um limite a esse tal construtivismo que grassa as ciências sociais. No final das contas, o General é mais refinado que eu. “Teu anti-depressivo está funcionando bem? Então, há de haver algum limite pare esse tal culturalismo...”
O problema é que o que parece um argumento pragmático, não deixa de se valer de algumas pressuposições metafísicas que nunca emergem como tal – o que não é de espantar, já que estamos tentando nos concentrar em um argumento pragmático que nos livre da verbosidade gorda de uma certa tradição filosófica, sociológica. Há algo mais metafísico que o positivismo comteano? Sua inteção, entretanto, era nos livrar do blá-blá-blá da filosofia. Insatisfeito conosco, por antecipação, um tal Martin Heidegger escreveu um livro interessante nos idos de 1959. Li o Introdução à Metafísica há coisa de uns dez anos e me lembro um tanto vagamente do argumento do livro – o que é uma lástima, pois a obra é mesmo importante para a pesquisa que realizo no momento. Uma parte importante do livro, de qualquer modo, é dedicada à questão da diferença entre o conceito grego de physis e o conceito latino de natura. Se devemos pensar de modo sólido o que é metafísica (meta ta physis), raciocina Heidegger, devemos começar por inquirir acerca do mundo físico, uma vez que é ele que a pergunta “por que há seres e não o nada?” pressupõe. Essa pergunta filosófica fundamental (angústia que alberga - gostaram? - outras angústias importantes, como: por que eu devo morrer? logo eu...) pressupõe que há um fundamento para o que há, ou para aquilo que Heidegger chama de essentes. É esse fundamento que a palavra grega physis procura.
Em algum lugar do Introdução à Metafísica Heidegger se pergunta algo como: “O que a palavra physis denota? Ela denota um emergir auto-florescente (por exemplo, o florescer de uma rosa), uma abertura, um desdobrar, aquilo que se manifesta neste desdobrar e persevera e o sustém; em suma, o âmbito das coisas que emergem e permanecem”. (E aqui já percebemos que o General estava correto ao falar da incompetência de filósofos, cientistas sociais para a literatura: "o florescer de uma rosa?...")Para os gregos, então, o mundo físico é algo que se abre permanecendo em si mesmo; uma potência que emerge e se sustém. Lembram da definição de natureza que nos oferece Aristóteles? Está lá na Física: A natureza tem o seu princípio de produção em si própria - em oposição a um ser técnico, que tem o princípio de sua produção em outrem.
As questões metafísicas são aquelas que não podem ser respondidas por esse ou aquele ser natural, mas pela totalidade dos essentes. É essa totalidade que é pressuposta, de partida. Não prosseguirei adiante com o argumento heideggeriano, falta-me tempo para retomar o resto do livro e o ler com atenção. Mas para o que pretendo discutir aqui, já dá.
A verdade é que tanto o conceito grego de phyisis como o conceito latino de natura pressupõem essa totalidade, essa unidade dos seres cujo sentido procuramos descortinar pela filosofia, pela religião, pela ciência, pela técnica. Aristóteles, por exemplo, acreditava que essa totalidade estava cindida, em um mundo lunar e um mundo sublunar, e que as regras físicas que valiam para o primeiro âmbito, não valiam para o segundo. Newton propôs, em oposição a ele, a unidade de todo universo e a possibilidade de encontrar um denominador comum para todo o cosmos: a matemática. Em A Imagem da Natureza na Física Moderna, Heisenberg escreve a esse respeito o seguinte: "para Newton, o passo decisivo tinha sido constituído pela descoberta de que as leis da mecânica regem a queda de uma pedra são as mesmas que regulam o movimento da lua em torno da terra e podem, por isso, aplicar-se também à escala cósmica". E algumas linhas abaixo, ele prossegue: "Também a palavra "descrição" da natureza foi perdendo cada vez mais o seu significado primitivo de representação destinada a transmitir uma imagem da natureza tanto quanto possível viva e sensível; adquiriu, pelo contrário, cada vez mais o sentido de 'descrição matemática da natureza', isto é, uma compilação de informações sobre as relações e as leis da natureza, tanto quanto possível precisa, concisa e ao mesmo tempo compreensível". A partir daí os cientistas começaram a dizer que mesmo Deus, se quiser produzir algo no mundo físico, teria de se submeter as regras da natureza.
Mais recentemente, outro desconfiado com o conceito de natureza, e que não gosta muito de Heidegger, propôs que pensássemos se o real, e a natureza, teriam mesmo uma necessidade, uma razão oculta uma causa primeira. Em oposição a essa visão, Rosset propõe uma visão trágica do natural, onde o acaso, a contingência, seria tudo o que poderíamos ter. Na Antinatureza Rosset faz um trabalho muito interessante de mapeamento filosófico dessas duas visões básicas da natureza: uma visão cética, que encontraríamos em pensadores como Hume, Montaigne, para quem a natureza é contingência; e uma visão que propõe uma univocidade da natureza, um fundamento ou necessidade, que deveríamos procurar sob a complexidade da empiria - Platão é aqui a referência fundamental. Tenho que voltar a esse texto, mas acredito que para Rosset não haja nada como uma natureza – e não obstante não podemos abandonar simplesmente essa comodidade do pensamento e da linguagem. O que é importante, no entanto, é pensar que a cultura ocidental (permitam-me essa redução) vem há muitos anos negociando, não apenas o que é cultura, mas o que é natureza. E a negociação de um dos termos, o(a) leitor(a), deve intuir, é a negociação do outro. O que tradicionalmente é visto na sociologia como uma antinomia insuperável, apresenta-se sob essa perspectiva como o terreno de uma economia.
Mas aqui já estou entrando num terreno familiar para quem vem acompanhando meus posts neste Cazzo – ou seja, Cynthia e Arthur. Foucault, Agamben, Nikolas Rose, Negri, todos esses estão (esteve) envolvidos com um tipo de pensamento que parte da seguinte constatação: a natureza, o que ela vem sendo, vem se tornando, é um problema fundamental na definição do que a cultura pode ser. Por esse motivo eu tenho me dedicado a estudar as tais tecnologias da vida e as transformações epistemológicas, ontológicas, políticas que passam a ser supostas em algo tão simples como acreditar, por exemplo, que os sistemas vivos são determinados por instruções moleculares escritas num alfabeto cujas letras seriam: T,C,G,A. Para os que não são iniciados, essas são as bases nitrogenadas, cuja combinação determinam o genoma dos seres vivos.
A natureza, acredito, não é âncora para nada: ela é um, talvez O, espaço de negociação onde produzimos a cultura. Isso seria construtivismo? Apenas se acreditarmos que a cultura é algo imaterial. E, no mais, McArthur, sempre podemos testar nossas hipóteses vendo quanta Boêmia weiss podemos tomar numa noite – obviamente, a mesa redonda não há de ser no Bar do Bigode.
Um tempo após a publicação desse post, estudando Judith Butler, onde essa discussão toda começou, leio as seguintes linhas:
Jonatas Ferreira
O problema é que o que parece um argumento pragmático, não deixa de se valer de algumas pressuposições metafísicas que nunca emergem como tal – o que não é de espantar, já que estamos tentando nos concentrar em um argumento pragmático que nos livre da verbosidade gorda de uma certa tradição filosófica, sociológica. Há algo mais metafísico que o positivismo comteano? Sua inteção, entretanto, era nos livrar do blá-blá-blá da filosofia. Insatisfeito conosco, por antecipação, um tal Martin Heidegger escreveu um livro interessante nos idos de 1959. Li o Introdução à Metafísica há coisa de uns dez anos e me lembro um tanto vagamente do argumento do livro – o que é uma lástima, pois a obra é mesmo importante para a pesquisa que realizo no momento. Uma parte importante do livro, de qualquer modo, é dedicada à questão da diferença entre o conceito grego de physis e o conceito latino de natura. Se devemos pensar de modo sólido o que é metafísica (meta ta physis), raciocina Heidegger, devemos começar por inquirir acerca do mundo físico, uma vez que é ele que a pergunta “por que há seres e não o nada?” pressupõe. Essa pergunta filosófica fundamental (angústia que alberga - gostaram? - outras angústias importantes, como: por que eu devo morrer? logo eu...) pressupõe que há um fundamento para o que há, ou para aquilo que Heidegger chama de essentes. É esse fundamento que a palavra grega physis procura.
Em algum lugar do Introdução à Metafísica Heidegger se pergunta algo como: “O que a palavra physis denota? Ela denota um emergir auto-florescente (por exemplo, o florescer de uma rosa), uma abertura, um desdobrar, aquilo que se manifesta neste desdobrar e persevera e o sustém; em suma, o âmbito das coisas que emergem e permanecem”. (E aqui já percebemos que o General estava correto ao falar da incompetência de filósofos, cientistas sociais para a literatura: "o florescer de uma rosa?...")Para os gregos, então, o mundo físico é algo que se abre permanecendo em si mesmo; uma potência que emerge e se sustém. Lembram da definição de natureza que nos oferece Aristóteles? Está lá na Física: A natureza tem o seu princípio de produção em si própria - em oposição a um ser técnico, que tem o princípio de sua produção em outrem.
As questões metafísicas são aquelas que não podem ser respondidas por esse ou aquele ser natural, mas pela totalidade dos essentes. É essa totalidade que é pressuposta, de partida. Não prosseguirei adiante com o argumento heideggeriano, falta-me tempo para retomar o resto do livro e o ler com atenção. Mas para o que pretendo discutir aqui, já dá.
A verdade é que tanto o conceito grego de phyisis como o conceito latino de natura pressupõem essa totalidade, essa unidade dos seres cujo sentido procuramos descortinar pela filosofia, pela religião, pela ciência, pela técnica. Aristóteles, por exemplo, acreditava que essa totalidade estava cindida, em um mundo lunar e um mundo sublunar, e que as regras físicas que valiam para o primeiro âmbito, não valiam para o segundo. Newton propôs, em oposição a ele, a unidade de todo universo e a possibilidade de encontrar um denominador comum para todo o cosmos: a matemática. Em A Imagem da Natureza na Física Moderna, Heisenberg escreve a esse respeito o seguinte: "para Newton, o passo decisivo tinha sido constituído pela descoberta de que as leis da mecânica regem a queda de uma pedra são as mesmas que regulam o movimento da lua em torno da terra e podem, por isso, aplicar-se também à escala cósmica". E algumas linhas abaixo, ele prossegue: "Também a palavra "descrição" da natureza foi perdendo cada vez mais o seu significado primitivo de representação destinada a transmitir uma imagem da natureza tanto quanto possível viva e sensível; adquiriu, pelo contrário, cada vez mais o sentido de 'descrição matemática da natureza', isto é, uma compilação de informações sobre as relações e as leis da natureza, tanto quanto possível precisa, concisa e ao mesmo tempo compreensível". A partir daí os cientistas começaram a dizer que mesmo Deus, se quiser produzir algo no mundo físico, teria de se submeter as regras da natureza.
Mais recentemente, outro desconfiado com o conceito de natureza, e que não gosta muito de Heidegger, propôs que pensássemos se o real, e a natureza, teriam mesmo uma necessidade, uma razão oculta uma causa primeira. Em oposição a essa visão, Rosset propõe uma visão trágica do natural, onde o acaso, a contingência, seria tudo o que poderíamos ter. Na Antinatureza Rosset faz um trabalho muito interessante de mapeamento filosófico dessas duas visões básicas da natureza: uma visão cética, que encontraríamos em pensadores como Hume, Montaigne, para quem a natureza é contingência; e uma visão que propõe uma univocidade da natureza, um fundamento ou necessidade, que deveríamos procurar sob a complexidade da empiria - Platão é aqui a referência fundamental. Tenho que voltar a esse texto, mas acredito que para Rosset não haja nada como uma natureza – e não obstante não podemos abandonar simplesmente essa comodidade do pensamento e da linguagem. O que é importante, no entanto, é pensar que a cultura ocidental (permitam-me essa redução) vem há muitos anos negociando, não apenas o que é cultura, mas o que é natureza. E a negociação de um dos termos, o(a) leitor(a), deve intuir, é a negociação do outro. O que tradicionalmente é visto na sociologia como uma antinomia insuperável, apresenta-se sob essa perspectiva como o terreno de uma economia.
Mas aqui já estou entrando num terreno familiar para quem vem acompanhando meus posts neste Cazzo – ou seja, Cynthia e Arthur. Foucault, Agamben, Nikolas Rose, Negri, todos esses estão (esteve) envolvidos com um tipo de pensamento que parte da seguinte constatação: a natureza, o que ela vem sendo, vem se tornando, é um problema fundamental na definição do que a cultura pode ser. Por esse motivo eu tenho me dedicado a estudar as tais tecnologias da vida e as transformações epistemológicas, ontológicas, políticas que passam a ser supostas em algo tão simples como acreditar, por exemplo, que os sistemas vivos são determinados por instruções moleculares escritas num alfabeto cujas letras seriam: T,C,G,A. Para os que não são iniciados, essas são as bases nitrogenadas, cuja combinação determinam o genoma dos seres vivos.
A natureza, acredito, não é âncora para nada: ela é um, talvez O, espaço de negociação onde produzimos a cultura. Isso seria construtivismo? Apenas se acreditarmos que a cultura é algo imaterial. E, no mais, McArthur, sempre podemos testar nossas hipóteses vendo quanta Boêmia weiss podemos tomar numa noite – obviamente, a mesa redonda não há de ser no Bar do Bigode.
Um tempo após a publicação desse post, estudando Judith Butler, onde essa discussão toda começou, leio as seguintes linhas:
"Pois se o gênero é tudo que existe, parece não haver nada "fora" dele, nenhuma âncora epistemológica plantada em um "antes" pré-cultural, podendo servir como ponto de partida epistemológico alternativo para uma avaliação crítica das relações de gênero existentes. Localizar o mecanismo mediante o qual o sexo transforma-se em gênero é pretender estabelecer, em termos não biológicos, não só o caráter de construção do gênero, seus status não natural e não necessário, mas também a universalidade cultural da opressão. Como esse mecanismo é formulado? Pode ele ser encontrado, ou só meramente imaginado? A designação de sua universalidade ostensiva é menos reificadora do que a posição que explica a opressão universal pela biologia?" (Butler, Problemas de Gênero, Civilização Brasileira, p. 67)(por editar)
Jonatas Ferreira
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Um duro golpe nos alunos licenciados em Ciências Sociais ?
Por Rogério Proença Leite (Universidade Federal de Sergipe)
Dentro das tratativas entre a CAPES e o CESAD da UFS, um novo curso de especialização foi aprovado e agora tramita no Departamento de Ciências Sociais para aprovação final e inicio do seu funcionamento.
Trata-se do Curso “Especialização em Ensino de Sociologia no Ensino Médio – modalidade à distância” a ser ministrado pelos docentes do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe.
A proposta do curso é bem interessante e muita oportuna, uma vez que se direciona a oferecer a necessária habilitação para aqueles professores efetivos da rede pública que já lecionam Sociologia, mas não são formados em Ciências Sociais. É uma forma dos usuais professores de matemática, biologia, historia etc serem “efetivados” na disciplina, com uma melhor qualificação curricular.
Tive acesso ao Projeto do curso aprovado e, infelizmente, constatei que de fato o curso poderá ser um duro golpe ao alunos licenciados em Ciências Sociais, esperançosos que sejam abertas vagas especificas nos concursos públicos vindouros. Mais do que isso: instalará uma situação no mínimo inconsistente para o Departamento de Ciências Sociais da UFS. Pois ao mesmo tempo em que estaremos licenciando Cientistas Sociais para exercerem o magistério, estaremos também ofertando formação continuada a quem já é professor concursado em outra área, mas que deseja também lecionar sociologia..... outras palavras, pergunto: não estaríamos ajudando a conformar uma situação hoje indesejada pelo movimento nacional dos estudantes de Ciências Sociais ? qual seja: a luta pelo reconhecimento profissional e a abertura de vagas para Cientistas Sociais no ensino médio ??
O curso foi criado na perspectiva de atender à obrigatoriedade do ensino da Sociologia no ensino médio, a partir da lei n° 11.684/2008, de 2 de Junho de 2008, que alterou a LDB, e que consolida uma diretriz já delineada pela o Conselho Nacional de Educação, em seu Parecer CNE/CEB Nº 38/2006, que dispõe sobre a obrigatoriedade das disciplinas Filosofia e Sociologia no currículo do Ensino Médio
Vejamos o que diz o projeto do curso, sobre o público-alvo e quais são os segmentos a serem beneficiados:
“5.4 – Público Alvo:
Professores graduados que estão atuando nos sistemas públicos de
ensino e ministram aulas nos Ensinos Fundamental e Médio.
Obs: Havendo vaga, e em consonância com as necessidades dos respectivos
sistemas de ensino e instituições formadoras, outros segmentos poderão ser
atendidos na oferta deste curso”
(….)
“6.1. Princípios e pressupostos relativos à formação no Curso de Especialização em Ensino de Sociologia no Ensino Médio
“De um lado, o desafio de aprofundar o processo de
formação inicial de professores para essa área por meio de desenhos
curriculares nos cursos de licenciatura em Sociologia que assegurem uma
sólida formação teórica e interdisciplinar, fortemente articulada com as
necessidades da escola e do nosso tempo na contemporaneidade. De outro, o
desafio de responder à formação continuada dos professores que atuam nessa
área, tendo em vista que parcela significativa deles não possui habilitação
específica para o exercício do magistério em Sociologia. É caso de
profissionais graduados em outras áreas e que são do quadro efetivo do
magistério, que por vezes e por diferentes razões, são designados para
ministrar Sociologia no ensino médio” (…..)
O texto parece claro. O curso se volta para a formação continuada de uma número elevado de professores das mais diversas áreas que lecionam Sociologia, ocupando a vaga que deveria ser preenchida por um licenciado em Ciências Socais. Infelizmente, todos sabem porque esses demais profissionais de outras áreas são designados para lecionar Sociologia: primeiro, porque ainda paira um enorme e lamentável preconceito que matérias como Sociologia, Artes e Filosofia podem ser ministradas por qualquer um. Segundo, para complementação de carga horária. Muitos desses profissionais sequer são das áreas de Humanas, o que piora ainda mais o quadro. Isso tem reconhecidamente trazido grandes prejuízos aos profissionais formado em Ciências Sociais. Se a tendência for essa, muitos profissionais de Ciências Sociais continuarão sem a chance de concorrer a uma vaga em concurso público porque simplesmente vagas não serão abertas. E não serão abertas porque aparentemente não há necessidades, uma vez que o acúmulo de disciplinas por professores de áreas diferentes está mascarando a verdadeira carência de profissionais qualificados nas áreas específicas.
O meu nome está na proposta original e já solicitei que fosse retirado por discordar pedagógica e politicamente dos objetivos do curso. Para mim é vital que o curso não corrobore uma prática pedagógica duvidosa que tem trazido enormes dissabores a quem passa anos estudando Ciências Sociais e depois descobre que nem para lecionar Sociologia ele é necessário, simplesmente porque outros profissionais estão ocupando a vaga que deveria ser sua.
Tenho tudo respeito e sou reconhecedor da enorme importância social que os cursos à distância da UAB têm tido no Brasil, favorecido uma inclusão educativa. Contudo, creio que a expansão de vagas não pode por em risco a qualidade do ensino e a coerência das nossas propostas de ensino.
Penso ser válido qualquer curso, desde que ele não entre em rota de colisão com outros já existentes. Por isso indago e faço dessa pequena reflexão um convite ao debate:
Aqui no Estado de Sergipe (e, imagino, em outros estados do país) , muitos dos ex-alunos, licenciados em Ciências Sociais, aguardam com ansiedade a abertura de concurso publico, na esperança que as vagas sejam destinadas restritamente para aqueles que forem portadores da licenciatura em Ciências Sociais. Nada mais justo, penso eu. E devemos não apenas apoiar essa reivindicação, como também somar esforços possíveis para que ela se amplie.
Pois bem, eis a questão que considero mais importante: em que medida é valida a existência de um curso de especialização que contraria os interesses dos licenciados em Ciências Sociais, ao permitir que outros profissionais já concursados se habilitem legalmente para a lecionar Sociologia, tornando desnecessária a abertura de novos vagas para Ciências Sociais em concursos vindouros ?
domingo, 11 de setembro de 2011
Homenagem a Heraldo Souto Maior no ALAS
![]() |
| Heraldo Souto Maior, Paulo Henrique Martins e Maria Eduarda Rocha. Foto retirada da página da ALAS no FB. |
Por Maria Eduarda Rocha
Vou começar com uma
apresentação bastante sintética, necessária em se tratando de um Congresso tão
grande quanto o ALAS, em que cabe destacar a trajetória do Prof. Heraldo Pessoa
Souto Maior. Muito mais haveria a dizer, mas resumindo muito, eu gostaria de
registrar que:
1)
Heraldo Pessoa
Souto Maior bacharelou-se em Direito, em 1952 na Faculdade de Direito do Recife,
onde desde o início privilegiou temas e autores da sociologia em sua formação.
Como ele costuma dizer, a Faculdade de Direito era um lugar em que se estudava
de tudo, inclusive, Direito.
2)
Mas foi no então
recém-criado Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais que Heraldo Souto
Maior teve suas primeiras experiências de pesquisa de campo, acrescentando um
ingrediente fundamental à sua formação sociológica.
3)
Em 1953 deu início à atividade docente no
ensino superior, na Faculdade de Filosofia do Recife, então, agregada à
Universidade do Recife. Como tantos de sua geração que só dispunham da opção de
uma formação jurídica para atuar nas diferentes áreas das humanidades, Heraldo
teve que buscar a formação especializada em sociologia depois da
graduação. Foi então que se intitulou
“Master of Arts” em Sociologia e Antropologia pela Michigan State University.
Apresentou a dissertação “Sociology, Sociologists and Economic Development”,
problemática que, ao lado das técnicas
de pesquisa, passou a orientar as suas atividades investigativas e de ensino,
na área da Sociologia, desde o seu retorno ao Brasil, em 1962.
4)
Entre 1966 e
1997, Heraldo Souto Maior foi Professor Titular e Professor Adjunto de
Sociologia, inicialmente, na Faculdade
de Ciências Econômicas, e no Instituto de Ciências do Homem da UFPE e, mais
adiante, no Centro de Filosofia e Ciências Humanas, nova denominação dada aos
Institutos pela legislação relativa à
reforma universitária.
5)
Nos anos 60, por
intermédio da celebração de convênios
entre a Universidade e órgãos públicos, como a SUDENE, e
também com instituições
de caráter internacional, como a USAID e a
Fundação Ford, delineou-se o quadro institucional e tonaram-se disponíveis os
recursos financeiros necessários para a criação do curso de mestrado em
Sociologia. Em 1967, ele foi implantado pelo Prof. Heraldo Souto Maior, inspirado
em proposta do Prof. Levy Cruz, juntamente com o curso de mestrado em
Economia, proposto pelo Professor Roberto Cavalcanti de Albuquerque, surgindo
então o Programa Integrado de Economia e
Sociologia, PIMES/UFPE. Esta sigla tornou-se referência nacional de produção acadêmica
de natureza interdisciplinar, sobre questões relacionadas aos processos de
mudanças sociais, e projetou a UFPE como
ambiente acadêmico dinâmico e inovador na área.
6) Em 1975, foi
convidado como “Honorary Research Associate”,
pelo Departamento de Antropologia, da Universidade de Harvard.
7)
Retornando da estadia na Harvard University, o
Professor Heraldo Souto Maior voltou-se,
a partir da década de 80, para pesquisas de caráter mais acadêmico. Trabalhando
com os dados dos diversos Censos
Demográficos, tem explorado aspectos relativos às migrações internas, à
segregação social, à educação superior e, sobretudo, à situação da família no
Brasil. Passa a integrar grupos de
trabalho da ANPOCS, entidade da qual, aliás, foi um dos fundadores. Apresentou
vários trabalhos sobre esses assuntos em congressos nacionais e internacionais,
com destaque para “Família no Brasil – 1950-1980”; “Família no Nordeste –
1970-1987”; “Mulher, Família e Trabalho no Nordeste- 1970-1987”, alguns dos
quais foram publicados em Anais e em
revistas especializadas.
8)
Ministrou, desde
o início de sua carreira docente na UFPE
até a data de sua aposentadoria, as disciplinas Teoria Sociológica,
Métodos e Técnicas de Pesquisa e Mudança
Social, alternada ou simultaneamente, tanto no curso de graduação em Ciências
Sociais como no Curso de Mestrado em Sociologia , cursos dos quais foi coordenador por alguns
períodos. O seu compromisso com a
formação inicial de graduandos
levou-o a aceitar
a tutoria do então Programa Especial de Treinamento
(PET) de 1988 a 1994, tendo participado ativamente dos embates
nacionais a respeito de uma iniciativa
da CAPES que, reconhecidamente, tem
produzido resultados acadêmicos muito positivos.
9)
Recentemente,
retomou preocupações do início de sua carreira acadêmica, dedicando-se a
retraçar a História da Sociologia em Pernambuco.
10) O reconhecimento de sua contribuição à
formação de sociólogos e ao conhecimento sobre aspectos específicos da realidade brasileira e regional foi objeto
de homenagens da Fundação Joaquim Nabuco
de Pesquisas Sociais, em 1995 e em 1999, pela outorga, respectivamente, da
Medalha Nordeste de Humanidades e do título de Pesquisador Emérito.
11) Aposentado de
suas atividades na graduação em Ciências Sociais, Heraldo recebeu o título de
Professor Emérito desta Universidade.
12) Em 2005, foi
condecorado com a medalha Florestan Fernandes pela Sociedade Brasileira de
Sociologia.
Mas esses títulos todos podem
virar letra morta se a gente perder de vista a experiência que está condensada
nessas linhas. Como fui aluna dele, e
hoje tenho a alegria de ser sua colega de sala e de programa de pós-graduação,
eu vou traduzir pra vocês. O que eles querem dizer é que Heraldo é, antes de
tudo, um mestre. Não simplesmente um mestre-escola, como ele uma vez sugeriu.
Um mestre no sentido da cultura popular nordestina. Entendido dessa forma, mestre é o vértice de
uma linhagem de artistas, aquele imbuído da tarefa de formar os jovens a partir
do legado de uma tradição. Heraldo é nosso mestre, inclusive porque faz da
sociologia uma arte. Seu mérito é tanto maior, quanto consideramos que a
tradição que ele representa, paradoxalmente, era muito nova em sua terra natal.
Ele é um mestre que, de certa forma, fundou uma tradição. Se o pensamento
social brasileiro já encontrava em Recife, desde muito antes, um representante
do quilate de Gilberto Freyre, foi Heraldo que ajudou a fazer a transição entre
aquela forma mais ensaística de pensamento e a sociologia como disciplina
científica propriamente dita. Foi ele, com a ajuda de outros pioneiros da
sociologia em Pernambuco, que plantou aqui essa grande árvore sob a qual eu e
meus colegas nos abrigamos hoje. Ele difundiu teorias e métodos até então pouco
conhecidos e, menos ainda, utilizados. Que lições ele ensinou a seus alunos,
muitos dos quais, hoje, são professores nesta e em tantas outras universidades
pelo mundo afora? Vou destacar apenas cinco, as que considero mais importantes.
Primeira lição:
Primeiro semestre de Ciências
Sociais. Disciplina de Teoria Social I. O começo de tudo: autores clássicos da
filosofia política, como Hobbes e Maquiavel. É começo porque são os
antecessores da sociologia (os primeiros a tomar as instituições sociais como
objeto de reflexão sistemática, ainda que especulativa). Mas era o começo também em outro sentido: era
a primeira vez que eu via a imaginação sociológica em ação. Mesmo apresentando
autores que trabalham em um nível tão alto de formalização, Heraldo ensinou a
primeira lição: a teoria trata da vida e nisto reside seu interesse maior. Alunos de ciências sociais costumam ser
espíritos inquietos em busca de respostas. Heraldo demonstrou, no primeiro
semestre, que tipo de resposta a sociologia pode oferecer.
Segunda lição:
Nesse mesmo gesto que
descortinava um caminho de reflexão sobre a vida, Heraldo me ensinou uma
segunda lição muito preciosa, talvez a mais preciosa de todas: que as respostas
fáceis e apressadas podem ser piores do que a ignorância. Se á um traço que o
define como sociólogo é seu anti-dogmatismo visceral. Isso explica como,
durante o Regime Militar, ele pode parecer suspeito tanto a alguns marxistas
quanto aos próprios militares. A imaginação sociológica, essa habilidade de
perceber a dimensão cotidiana dos grandes temas e problemas da sociologia,
demanda o exercício constante da dúvida. Esse exercício, por sua vez, implica
em que não nos fechemos em nenhuma forma de absolutismo. Implica em perceber
desde logo o caráter parcial, provisório, frágil mesmo, das nossas convicções
mais profundas e, por conseqüência, do conhecimento que produzimos baseados
nessas convicções. Essa dose de weberianismo foi fundamental para mim e para
tantos colegas com quem ele conviveu em uma interlocução respeitosa e
enriquecedora.
Terceira lição:
Em meio a esse exercício
continuo de reflexão sobre o mundo e de auto-reflexão sobre os seus próprios
pressupostos, Heraldo encontrou um caminho muito próprio para conciliar
distanciamento heurístico e compromisso moral com as pessoas. A sociologia é
esse caminho. Mas não qualquer sociologia.
Hoje vivemos uma época em que o desencanto ameaça se tornar indiferença.
Heraldo me ensinou que o anti-dogmatismo não precisa nos conduzir a um
relativismo impotente. Pelo contrário: o seu riso desconcertante expressa
simultaneamente um forte espírito crítico e uma profunda capacidade de se
deixar afetar pelos problemas que seus alunos lhe trazem. E, em uma simples
tirada, ele é capaz de apontar caminhos e nos afastar do óbvio. A uma
orientanda de doutorado minha, por exemplo, ele disse uma frase que virou a
epígrafe da tese dela. Era um estudo sobre a recepção de uma revista de
celebridades em salões de beleza na periferia do Recife. Ele saiu-se com essa:
“que mocinha do subúrbio nunca sonhou em ser rainha do baile?”.
Quarta Lição:
Esta é muito necessária para os
da minha geração: a sociologia demanda uma visão de conjunto. Talvez mais do
que qualquer outra ciência, ela padece toda vez que a especialização é
exagerada. Vivemos uma época em que, por
pressões institucionais e pela força de certas correntes de pensamento, os
temas e problemas sociológicos tendem a se fragmentar em uma miríade de
especialismos, e os custos dessa tendência me parecem evidentes: muitas vezes, os
trabalhos não conseguem passar da
descrição à explicação, que demandaria a articulação entre o objeto particular
de investigação e a sociedade entendida de modo mais global, em suas múltiplas
dimensões. Heraldo sempre teve a preocupação de resistir ao excesso de
especialização. Por isso, inclusive, implantou o PET de Ciências Sociais (Hoje,
Programa de Educação Tutorial), voltado a prover uma formação o mais ampla
possível aos seus participantes. As suas aulas, o que se aprende é que toda
sociologia específica é, antes de tudo, sociologia, e essa é uma lição muito
preciosa.
A quinta e última lição que me
cabe mencionar aqui, não sei se foi a sociologia que lhe ensinou, mas, sem ela,
dificilmente um professor se torna um mestre, no sentido aqui proposto. Aprendi
com Heraldo que a docência demanda uma boa dose de firmeza, respeito, escuta, generosidade
e senso de justiça. Se possível, acrescida de uma pitada de esperança, como é o
seu caso. Por tudo isso, meu mestre, eu
quero ser você quando crescer.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Palavras de agradecimento por ocasião de homenagem no XVIII Congresso da Associação Latinoamericana de Sociologia
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| Cynthia Hamlin, Heraldo Souto Maior e Maria Eduarda Rocha. Foto de Rebecca Melo, fisgada da página da ALAS no FB |
Por Heraldo Souto Maior
Surpreendeu-me esta homenagem da Associação Latino Americana de Sociologia. Perguntei-me porque um “poeta municipal”, para usar a expressão de Carlos Drummond de Andrade, era escolhido para ser homenageado neste XXVIII Congresso em que a ALAS completa sessenta anos de existência. Não seria algo desproporcional? Que sentido simbólico ou latente teria isso?
Depois de alguma reflexão, lembrei que o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS/UFPE), que acolhe o Congresso em seu campus, também aniversaria neste ano, completando quarenta e cinco anos. Como o acaso me colocou à frente da idéia já existente para sua criação, julguei que, como último sobrevivente daquele momento ainda em atividade em seu funcionamento, essa era uma forma de, na verdade, homenagear o nosso programa e o sucesso do projeto. Cumpre perguntar se estava apenas sendo homenageado o PPGS/UFPE, por ser o hospedeiro, ou, se de alguma forma, o dono da casa, vem realizando a seu modo e nesta região os ideais que têm movido a ALAS durante sua longa existência. Ou, dito de forma mais geral, se vem realizando os ideais da sociologia, no ensino ou formação de seus profissionais, na pesquisa e em sua utilidade, no sentido que Robert Lynd perguntava já faz bastante tempo, conhecimento para que?.
Já que sou considerado “fundador” sobrevivente e me homenageiam por isso, tomo a liberdade de falar um pouco sobre mim mesmo e minha participação. Para usar palavras de Maquiavel, veremos se à “fortuna” que me colocou naquela condição corresponde alguma “virtu” na realização dos objetivos propostos. Se sim, de certa forma, o homenageado não deslustra a instituição que, em última instância, é a homenageada. A minha história pessoal teria algum interesse, na medida em que mostrasse o contexto de uma época e como nela se “fazia um sociólogo”, para usar a expressão de Sebastião Vila Nova. Tempo houvesse, falaria dos acasos, dos encontros e desencontros e das redes sociais que construíram essa minha fortuna. O que poderia dar uma boa análise sociológica de destinos pessoais e contextos socioculturais, ou, se quisermos, das relações entre ator e estrutura social.
É bom que se diga que, apesar de “fundador”, contei com uma série de circunstâncias ou com um contexto que, apesar de fatores desfavoráveis, abria caminho para o sucesso do empreendimento. Naturalmente sem esquecer um grupo de colegas e administradores que me favoreciam na formulação final desse projeto a ser levado à frente. E, posteriormente, tantos outros que contribuíram e continuam contribuindo para a continuidade desse sucesso.
Naquela época, falar em sociologia no Brasil era principalmente falar em São Paulo e Rio de Janeiro. Principalmente São Paulo. Para usar um termo muito em moda, diria que éramos colonizados por São Paulo, ou seja, a chamada escola paulista de sociologia. Tínhamos Gilberto Freyre, mas este, apesar de sua fama nacional e internacional, nunca se acomodou ao estilo da academia. Como todos sabemos, a institucionalização da sociologia ocorreu, ao longo do tempo, nas universidades e em seus departamentos de sociologia. Gilberto Freyre, é bom que se diga, institucionalizara a pesquisa no fim dos anos quarenta, ao criar o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje FUNDAJ, nosso parceiro na realização deste Congresso.
Aqui, nesse aspecto, na Universidade, éramos praticamente zero. Nosso primeiro departamento de ciências sociais chega tardiamente em 1950, inicialmente fora da então Universidade do Recife, esta que hoje acolhe a ALAS com o nome de Universidade Federal de Pernambuco. Era um departamento praticamente sem pesquisa, dedicada a uma sociologia de poltrona, herdeira ainda da tradição da Faculdade de Direito do Recife e da chamada Escola do Recife, dos fins do século XIX. Contra isso, se movimentou um grupo de jovens pesquisadores, não apenas de sociologia, de dentro e de fora da universidade. É bom lembrar que essa nova maneira de ver encontrava resistência em certo setores tradicionais dentro da universidade, não apenas pela nova forma de pensar, mas, também, por uma possível ameaça a um sistema de poder.
No entanto, em um contexto mais geral, criado pela reforma das universidades federais, abriu-se um ruptura que propiciou uma transformação profunda, anulando as resistências internas. Tratava-se da Lei No 4024, de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de dezembro de 1961, com base na qual foram criados os Institutos Universitários ao lado das Faculdades e Escolas já existentes, entre eles, o Instituto de Ciências do Homem, no qual estava localizada a sociologia, completando a institucionalização da disciplina. Não seria exagerado dizer que esse projeto nacional em favor da pós-graduação e da pesquisa terminou por favorecer a sociologia em outros estados, poucos a princípio, mas em todo Brasil ao final. Pode-se, creio, perguntar agora, o que é essa sociologia brasileira e qual a sua identidade ou suas identidades. Dada a proporção continental do País, podemos indagar a respeito de semelhanças com a o resto da América Latina. O que vemos hoje é que a sociologia está presente e tem o que dizer no Brasil inteiro e contracena com instituições além do continente. Estes congressos da ALAS, por seu lado, procuram promover a maior integração na própria América Latina.
Vamos, então, a nossa proposta inicial, ou seja, de como a nossa atividade tem realizado, a sua maneira, ideais que também, creio, o são da sociologia latino americana, na América Latina ou da América Latina, como quer que o seja.
Em primeiro lugar, a própria concepção do projeto e de sua possível viabilidade só se se torna possível com as condições proporcionadas pela Lei acima referida e pelo anterior estabelecimento das universidades federais. Como já afirmamos, o crescimento científico no mundo moderno não se faz senão a partir da expansão e fortalecimento das universidades. Isto valeu para o Brasil e também vale para a América Latina.
Em nosso caso particular, com a SUDENE e a idéia do desenvolvimento regional, sentiu-se a necessidade de pesquisas e pesquisadores no campo das ciências sociais que mostrassem a realidade socioeconômica do Nordeste. Isso quer dizer, conhecimento interdisciplinar, intercâmbio entre essas diversas ciências. Daí, a criação de um programa integrado de mestrado em economia e sociologia, o PIMES. É bom não esquecer o nome do professor Roberto Cavalcanti de Albuquerque, economista e humanista, que, juntos, concebemos o projeto final, aprovado pela Universidade em dezembro de 1966.
Não foi sem percalços que a empreitada foi levada avante. Enfrentamos a oposição dos setores tradicionais do Departamento de Ciências Sociais, dentro da própria Universidade. Também, de grupos soi disant progressistas que se nos opunham por aceitarmos financiamento e suporte da agências internacionais como a Fundação Ford e a USAID. Sem falar, nos serviços de segurança do governo militar que viam a sociologia com extrema suspeição, mantendo-nos sob vigilância por muito tempo. Era um caminhar com muito temor e ansiedade entre fogos cruzados. Necessitávamos de muito tato e sensibilidade política para caminharmos nessa selva selvaggia, nesses tempos de muita intolerância.
No entanto, não fossem esses recursos e os alocados pela SUDENE e pelas contrapartidas da própria Universidade, não poderíamos ter ido à frente. Não fosse o apoio decisivo e a confiança do então Reitor Professor Murilo Guimarães e do Pró-Reitor Marcionilo Lins, depois também reitor, não sei se naquela época teríamos superado as dificuldades.
Mas, como suposto homenageado, mencionarei alguns pontos da filosofia que, como coordenador por cerca de onze anos, procurei imprimir ao projeto.
Em primeiro lugar, uma posição de abertura teórico metodológica no recrutamento e na formação de seus professores e pesquisadores que permitisse o confronto e o debate entre perspectivas diferentes de ver e de investigar o social. De promover a controvérsia e evitar a ditadura do pensamento único. Isso incluía também a perspectiva interdisciplinar, implícita na idéia de um mestrado integrado em economia e sociologia e que coincidia com os objetivos do Instituto de Ciências do Homem, com suas Divisões de Sociologia, Psicologia, Economia, Antropologia, Ciência do Direito e História. Daí a idéia de formarmos professores e pesquisadores em diferentes universidades, em países diferentes. Tanto quanto possível, evitar a endogenia.
Também era intenção contribuir com pesquisas voltadas para os problemas do Nordeste e que pudessem fundamentar políticas públicas para resolvê-los. Assim o fizemos com a SUDENE, com a CODEVASF, com a Prefeitura do Recife, com a COHAB, entre outras. Pensávamos que um bom diagnóstico seria a melhor base para a ação. Conhecer a realidade para melhor transformá-la. Ir além da pura indignação e de um voluntarismo sem sentido concreto. A interpretação do mundo e da sociedade é necessária para que possamos transformá-la, mas acontece que a história não para. Necessitamos sempre de estarmos a reinterpretá-la. Paradoxalmente, os melhores diagnósticos, apesar de uteis e necessários, não nos permitem a previsão do futuro. A sociologia tem que conviver com os paradoxos. Para essa convivência precisamos da sabedoria.
Esforçamo-nos para concretizar a colaboração com outros programas e estivemos presentes na fundação da ANPOCS e participamos sempre de suas atividades. Bastante antes mesmo da ANPOCS estivemos em encontros dos poucos programas de pesquisa e pós-graduação existentes. Estivemos presentes na reorganização da Sociedade Brasileira de Sociologia. Considerávamos o fortalecimento de associações e sociedades científicas fundamental.
Do ponto de vista pessoal, como professor, sempre evitei impor minhas idéias aos meus alunos. O importante, para mim, era despertar neles a capacidade de pensar e de descobrir onde estavam os problemas, de pensar sociologicamente. Não acredito em teoria única ou teoria final. Penso a sociologia como um conjunto de perspectivas, cada uma revelando uma forma de ser do social e da sociedade. Não existe uma teoria final.
Acredito em uma sociologia crítica, sempre se renovando. Nada nela é sagrado, tudo é possível de contestação. A maior conquista do espírito científico é a rejeição do espírito dogmático. A sociologia, portanto, tem que ser crítica dela própria.
Imagino a academia como um modo de vida, mais que um meio de vida sem deixar de sê-lo. Se a sociologia é o meio de vida do sociólogo, resta-nos provar que é um meio de vida honesto e não devemos nos envergonhar dele. Que não seja um meio de vida espetáculo, uma corrida de vaidades e lutas de poder, mas uma atividade que, com as armas do conhecimento disponível, transforme apropriadamente problemas sociais em questão sociológica, sem esquecer o seu compromisso com o aprofundamento da construção de relações sociais justas e democráticas. Assim deve ser a academia, assim deve ser a sociologia.
Este o meu ideário. Assusta-me, pois, esta homenagem e me indago se o “poeta municipal” de alguma forma o merece. Se seus esforços para criar e dar vida a este PPGS/UFPE e os rumos que ele tomou com a participação de tantos outros justifica que a homenagem seja feita a meu nome.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Entrevista com Zygmunt Bauman
De: Luciano Oliveira
Para: Cynthia Hamlin
Não gosto muito do "best-sellerismo" que tomou conta de sua obra: amor líquido, vida
líquida... termina virando artigo de liquidação!
Mas ele tem um livro que acho magnífico: Modernidade e Holocausto.
Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.
Para: Cynthia Hamlin
Conhece?
Vale a pena.Não gosto muito do "best-sellerismo" que tomou conta de sua obra: amor líquido, vida
líquida... termina virando artigo de liquidação!
Mas ele tem um livro que acho magnífico: Modernidade e Holocausto.
Lulu
(Sorry, Lulu, mas seus emails são impagáveis.)
Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
Heidegger, Agamben e o Animal (versão completa)
Jonatas Ferreira
Ao passar a fronteira ou os fins do homem, chego ao animal:ao animal em si, ao animal em mim e ao animal em falta de si-mesmo, a esse homem de que Nietzsche dizia, aproximadamente, não sei exatamente onde, ser um animal ainda indeterminado, um animal em falta de si-mesmo. (Derrida, 2002, p. 15.)
A metafísica é uma interrogação na qual nos inserimos de modo questionador na totalidade e perguntamos de uma tal maneira que, na questão, nós mesmos, os questionadores, somos colocados como questão. (Heidegger, 2006, p. 11.)
Introdução
Há um conjunto de fenômenos contemporâneos que as ciências humanas costumam designar de “dessimbolizadores”. Já ouvi algumas coisas a esse respeito: que a única democracia que hoje podemos almejar é a do consumo (Lipovetsky), que as várias formas de investimento corporal com as quais nos deparamos seriam algo como a emergência do Real lacaniano (Dany-Robert Dufour), que assistimos ao fim das utopias, ao fim da crítica (Baudrillard e Virilio), à emergência do biopoder como quintessência do político (Agamben, Negri), à transformação do labor na essência de todas as relações sociais (Arendt), à conversão da “vida nua” em campo prioritário de investimentos culturais, políticos, existenciais (Agamben). Minhas alunas de pós-graduação, que fazem dissertações e teses no campo da sociologia do corpo, não parecem mais otimistas: falam do fim da terapia, da medicalização da vida, da sertralinização dos humores, do “império do efêmero”, da ditadura da juventude. Meus colegas lacanianos falam na morte do pai. Aumentou a criminalidade? Isso não é de espantar uma vez que o pai morreu. Há uma cultura do pânico se instalando? Segue o cortejo fúnebre do pai. Em todo caso ainda caberia perguntar se poderíamos entender esse conjunto de conclusões distópicas não como parte de um “diagnóstico” sofisticado de nossa situação, mas como parte de “sintomas” mais profundos que devem ser objeto de reflexão.
Já na década de 1930, Martin Heidegger (2006) advertia acerca do perigo de um certo sociologismo, que ele chamava de “filosofia da cultura”, um tipo de pensar distanciado em que quadros culturais e históricos amplos são traçados sem que o intelectual se veja implicado neste ou naquele enquadramento cultural. Uma forma de reflexão, portanto, metafísica, em que um olhar transcendente cataloga as pequenas e grandes misérias da história da humanidade – e, eventualmente, lacrimeja. Embora não tenha nada a dizer diretamente a propósito do conjunto de questões que absorvem minhas alunas ou amigos lacanianos, e no que pese sua crítica àqueles que chegam facilmente a uma Weltanschauung das sociedades contemporâneas, Heidegger parece alimentar essa visão pessimista. De fato, não há como evitar esse tipo de conclusão sombria, uma vez constatado o niilismo como essência de nossa cultura tecnológica e, portanto, fundamento do imperativo da aceleração e da disponibilização total dos entes. Também não obtemos outro tipo de conclusão quando consideramos a afirmação heideggeriana de que a própria linguagem teria sido apropriada pelas demandas de desempenho das tecnologias de informação e comunicação. Tudo isso é compatível com diagnósticos tais como dessimbolização, morte do pai, investimento no concreto do corpo, perda de valores supremos. Se mesmo a linguagem, âmbito em que o pensar se realiza, encontra-se mobilizada pela técnica, por seu afã inovador, acelerador, em que espaço a crítica seria possível? Essa linha de argumentação é bem conhecidapelos estudiosos de Heidegger e diz respeito, sobretudo, às suas contribuições da década de 1960, entre as quais podemos mencionar Língua de tradição elíngua técnica e A caminho da linguagem. Cito aqui o próprio Heidegger:
Ora é precisamente esta concepção corrente da língua que se vê não somente avivada pelo fato da dominação da técnica moderna, mas reforçada e levada exclusivamente ao extremo. Ela reduz-se à proposição: a língua é informação. [...] em que medida o que é próprio da técnica acaba por se impor à língua levando à sua transformação em pura informação, de tal maneira que provoca o homem, quer dizer, obriga-o a assegurar a energia natural e a colocá-la à sua disposição? (Heidegger, 1999, p. 33)E em outra passagem:
O “grande perigo” é que “a maré da revolução tecnológica que se aproxima na era atômica pode cativar, enfeitiçar, ofuscar e iludir o homem de tal modo que o pensar calculador pode algum dia ser aceito e praticado como único modo de pensar” (Heidegger apud Dreyfus, 1993, p. 305).
O desafio que o pensamento heideggeriano apresenta é, portanto, poder discorrer acerca de “nossa situação” histórica sem pensar o ser humano como coisa dada, como pergunta respondida por suas determinações culturais: “e isto porque estes diagnósticos e prognósticos somente nos fornecem um papel e nos desconectam de nós mesmos, em vez de nos auxiliar no intuito de nos encontrarmos” (Heidegger, 2006, p. 93). Como é possível pensar a humanidade do ser humano, os constrangimentos que resultam da condição histórica na qual esse ser se realiza e se perde, mantendo-nos ao mesmo tempo abertos à ideia fundamental de que o ser humano é aquele cuja essência é um estar sempre a caminho? Se essa definição é verdadeira, ser-nos-ia logicamente inconcebível totalizar o ser humano, obter dele uma mirada transcendente que o objetivasse e disponibilizasse de algum modo. “Filosofia é o contrário de todo aquietamento e asseguramento” (Idem, p. 24). Por isso, a resposta que Heidegger oferece à questão acima é: faz-se necessário refletir sobre essa desconexão que o sociologismo e a filosofia da cultura promovem entre o ser do ser humano e seu mundo, sobre essa distância que nos arrasta para um “tédio profundo”, sob cuja influência o mundo e a tarefa intelectual parecem submergir em niilismo. Em O aberto, Giorgio Agamben (2004) parece se concentrar nas questões que daí decorrem. Comentando as 180 páginas que, em Os conceitos fundamentais da metafísica, Heidegger dedica a pensar o que ele próprio denomina “chatice profunda”, ou “tédio profundo”, Agamben pretende se concentrar em um ponto específico daquela análise, a saber, a relação entre o humano e o animal – caso possamos aceitar que do ponto de vista de tal abordagem alguma relação aqui se pode estabelecer, ou que ainda a eventual impossibilidade desse vínculo nos diga respeito. No conhecido Carta sobre o humanismo essa relação já é problematizada do seguinte modo: porque a pergunta fundamental que o humanismo produz é sempre “o que é o ser humano?”, entendendo e dispondo o ser humano, portanto, em meio à totalidade dos entes, o humanismo no fundo reduz o humano à condição de animal, à condição de um “que” – ainda que lhe confira algum tipo de qualidade específica: a inteligência, a fala, o luto etc. O animal é o horizonte a partir do qual o humanismo tende sempre a pensar o ser humano – e é ao mesmo tempo o seu impensado. Aqui é necessário dizer que a redução do humanitas ao animalitas é apenas uma forma diferente de expressar a desconexão, distância sobre a qual falávamos e que torna o mundo impenetrável, tedioso. Ou seja, tal gesto filosófico torna o niilismo inevitável precisamente ao cancelar, ao não encarar de modo que seja radical o suficiente, a questão da essência do humano.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Entre conhecer, dever ser e reconhecimento : quando um gaúcho sem-teto irrompeu no congresso da SBS em Curitiba
Por Tâmara de Oliveira
Congressos grandes provocam-me uma sensação comparável àquela de estar diante de « n » marcas de uma mercadoria: opções concomitantes e demasiadas desestabilizam-me, intimidam-me, cansam-me, tiram-me o gosto e o poder da escolha. Assim, nas raras vezes em que vou, tenho a mesma estratégia: concentro-me no GT onde apresento trabalho, assisto a uma ou (no máximo) duas conferências e, no resto do tempo, passeio entre as editoras ; não tanto para comprar livros (para mim, a redução do preço não compensa o peso na mala), mas tentando reencontrar velhos amigos e fazer novos. Esclarecendo: não é que não goste de mercadorias nem de congressos, nem estou aqui reduzindo uns às outras; apenas ambos assustam-me quando em excesso.
Foi assim no ultimo congresso da SBS, em Curitiba. Apresentei trabalho no GT Segregação social, políticas públicas e direitos humanos, coordenado pelos professores Luiz Antonio Machado da Silva (IUPERJ/UFRJ) e Pedro Rodolfo Bodê de Moraes (UFPR). Não os conhecia, mas a proposta do GT indicava, a priori, uma afinidade eletiva entre o ponto de vista deles e o meu sobre dinâmicas de desigualdades e conflitualidades nas sociedades contemporâneas. E eu tinha feito, em 2008, uma pesquisa exploratória em representações sociais sobre a cidadania, junto a estudantes franceses do ensino médio, onde um fenômeno grave de segregação – a escolar –, num sistema de ensino quase inteiramente público, revelou-se como saber de pano-de-fundo das representações sociais sobre/da cidadania, tanto dos estudantes pesquisados quanto do pesquisador.
Quando li a proposta do GT de Luiz Antonio Machado e Pedro Bodê, percebi imediatamente que seria um espaço possível para discutir e partilhar o que conheci daquele fenômeno da França contemporânea, pensando que a reflexão comparativa sobre processos de segregação social é uma tarefa inevitável nesse mundo globalizado de meu deus. Tive que estudar um bocado (já que os resultados de minha pesquisa exploratória não eram suficientes para escrever sobre a segregação escolar ao mesmo tempo sócio-econômica e etnicizada que sofre o sistema escolar francês), mas fui bem recompensada pelo esforço: o GT abrigou meu trabalho e suas discussões durante o congresso mostraram que minha percepção estava certa: o ponto de vista dos coordenadores tem afinidades importantes para com o meu.
Na primeira sessão do GT, o professor Pedro Bodê verbalizou sua motivação de fundo – que espero conseguir reproduzir aqui sem deformar o sentido: a de inscrever no campo dos estudos sobre violência, segurança e políticas públicas, tanto na dimensão da sociabilidade em territórios segregados quanto naquela das práticas do Estado e ONGs sobre esses territórios, uma abordagem que para ele anda sendo esvaziada, aquela dos processos contemporâneos de segregação social, pensando que a temática das desigualdades deve reassumir um papel central nesses estudos.
Ora, justamente, meu trabalho tentou descrever a evolução da primeira política afirmativa do Estado francês para combater formas de segregação social já urbanamente visíveis no início dos anos 1980 ( as Zones d’Éducation Prioritaire – ZEP). Formas estas que atingiam negativamente as camadas populares da sociedade, manifestando-se duplamente: sócio-econômica e etnicamente. Sendo reproduzidas dentro de seu sistema escolar quase inteiramente público, essas formas de segregação ainda não tinham desembocado numa classificação idealtipicamente binária, a escola do centro e a escola da periferia, mas são atualmente um ponto quase pacífico entre pesquisadores e estudiosos do sistema escolar francês.
Não sendo resultado de pesquisa empírica mas de levantamento bibliográfico, tanto de pesquisas universitárias quanto de textos oficiais e de atores envolvidos com a Educação Prioritária, o trabalho seguiu entretanto uma hipótese orientadora da reflexão: genealogicamente, essa política do primeiro governo socialista para enfrentar uma segregação escolar que ainda não dizia seu nome, era apenas reativa a um processo de segregação urbana exprimindo-se duplamente – sócio-econômica e etnicamente. Mas sua longa evolução, principalmente a partir de 2002 quando a direita volta a governar sozinha e os socialistas perderam as eleições e o juízo, indica que a Educação Prioritária à francesa tem se transformado em política pública que participa ativa e voluntariamente de uma abordagem securitária e segregacionista das classes populares da França contemporânea, das quais a etnicização/estigmatização dos que tem ascendência nas ex-colônias, é uma das moedas correntes de legitimação político-governamental.
Tive também a oportunidade de entrar em contato com trabalhos de uma sofisticação teórica e metodológica admiráveis, como a do doutorando Dinaldo Almendra (UERJ), intitulado Junto e separado: rotina, segregação social e violência urbana carioca. Estudando as representações sociais das redes de sociabilidade entre diversos tipos de atores envolvidos com a violência carioca urbana (policiais, traficantes, usuários de drogas, jornalistas, agentes públicos, pesquisadores, militantes de movimentos sociais, etc.), Almendra sustenta a hipótese de que a ética do provedor (Alba Zaluar) enquanto lógica distintiva do mundo do crime naqueles territórios urbanos segregados, tem sido substituída por uma lógica interativa e situacional que ele chama de lealdade instrumental, espécie de dispositivo que junta e separa ao mesmo tempo esses atores do mundo segregado das favelas, assim sustentando objetiva e simbolicamente a segregação:
(…)os laços que unem de modo rotineiro e profundo esses atores sociais são, rigorosamente, os mesmos laços que os distanciam entre si com brutal e igual intensidade. Disso resulta a hipótese central da tese, a de que a relação de contiguidade entre as duas ordens sociais deu origem a uma espécie de vínculo social armado e impulsionado internamente com um dispositivo de convivência interpessoal que força as relações de rotina em dois movimentos concomitantes: de aproximação e de separação dos atores sociais. Todos transitam e desempenham papéis ambíguos e às vezes ambivalentes nas relações de cerco à vida da população favelada, atuando nos liames exatos da relação de contiguidade entre duas ordens sociais. Os vínculos são regulados através de operações críticas realizadas pelos atores e orientadas para o estabelecimento de nexos de “identificações sociais ocasionais” necessários aos movimentos de contração ou de ampliação de “lealdades transitórias”.
Na segunda sessão, quando foi a vez do professor Luiz Antonio Machado debater as apresentações, optando por um balanço reflexivo do que tinha sido discutido até ali, ele declarou que o conceito de segregação parece dizer que não existe dentro e fora, lançando a seguinte pergunta: supondo que o Estado constitui-se constituindo suas margens, estas seriam inevitáveis às políticas públicas? Lembrando que desigualdades de classe não implicam necessariamente em segregação social, Machado colocou que uma maneira de estabilizar as relações de classe foi o Estado do Bem-Estar Social (de quem quase todos tem saudades, mas que era denegrido por quase todo mundo em sua época), definido por ele como uma política pública (ou seja, como uma intervenção intencional de uma coletividade sobre si mesma), sob a forma de um pacto de proteção social e legitimado pelas classes subalternas. Ora, traduzida pela linguagem dos direitos, essa política pública foi substituída por uma linguagem de violência urbana. Eu acrescentaria: linguagem de violência urbana cada vez mais segregacionista, globalmente, e construída/construindo-se entre Estados e atores sociais – em versões diferentes, de centro-esquerda e « doce », como no Brasil desde meados dos anos 1990; de direita e « dura », como na França desde 2002.
O professor Machado disse também ter observado que os trabalhos ali apresentados oscilavam entre uma ficha do « dever ser » e uma ficha interna, analítica. Ele declarou pensar que, para intervir, é preciso antes entender como se produz, e de que forma, a relação entre Estado e segregação social. Para ele, a esperança não é nossa, mas de nosso objeto, pois que os atores sociais são competentes. Ele não disse todas essas coisas dessa maneira nem nessa ordem. Recoloco-as segundo sua ressonância sobre mim. Por isso deixei por último essa afirmação sobre a esperança que não é nossa, mas de nosso objeto. Aquilo ficou incomodando, apesar do estado de encantamento a que a fala do professor Luiz Antonio Machado, de humor e inteligência brilhantes e empáticos, levou-me inevitavelmente.
Depois de uma passeio pela tenda das editoras, fui para o hotel porque tinha compromisso comemorativo à noite. Fumante que sou, estava segregada do lado de fora da porta do hotel, esperando telefonema dos amigos, quando aproximou-se um homem ainda jovem pedindo-me esmola. O celular tocou no mesmo momento. Pedi que o rapaz esperasse, atendi, marquei hora com os amigos e voltei a olhá-lo. Ele me olhava com um sorriso ditoso, dizendo-me mais ou menos assim:
- Dona, você já me deu muito, só por olhar para mim; porque as pessoas hoje em dia, quando vêem a gente, pensam que a gente vai roubar, esfaquear, matar.
- Mas eu tenho alguma coisa pra você, respondi já estomacada de culpa e desrazão, o que tiver aqui eu passo para você. Você é curitibano ?
- Muito obrigado. Eu sou gaúcho; quinze anos sem-teto.
- E é um homem bonito, acrescentei sem saber o que estava dizendo, talvez apenas porque ele era realmente um cara ainda bonito (tipo moreno tenebroso gaúcho), apesar dos frangalhos de roupas e da falta de banho regular.
Aí seu sorriso ficou eufórico, os olhos brilhavam como os de um menino (mas sem nenhuma insinuação de paquera ou qualquer coisa que o valha). E respondeu:
- Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo! Demais.
E partiu sorrindo com minhas ex-moedas e eu fiquei prendendo o choro. Talvez apenas devido ao meu cristianismo ateu de esquerda. Mas talvez também porque, em sua fala, o professor Machado esqueceu que, em ciências sociais, nós também somos parte de nosso objeto. Acredito que eu estava ali diante de um ator social das ruas, suficientemente competente para perceber imediatamente que estava diante de alguém que reconhecera sua humanidade. Essa sua competência orientou uma interação em que ele conseguiu o máximo de dinheiro que um morador de rua pode esperar de um digno membro das classes médias frequentadoras de hotéis medianos. Mas sei também que é porque somos parte de nosso objeto, que nossos trabalhos no GT oscilaram entre o «dever ser» e o analítico (o conhecimento). Finalmente, coisa que o bonito mendigo gaúcho me mostrou mais uma vez na vida, as desigualdades e conflitualidades contemporâneas em torno da segregação dos mais desfavorecidos, tem nos enjeux de reconhecimento/luta pelo reconhecimento, uma chave analítica importante. Que assim seja.
BIBLIOGRAFIA :
AMENDRA, D. Junto e separado : rotina, segregação social e violência urbana carioca. In : mudanças, permanências e desafios sociológicos. Resumos. XV Congresso Brasileiro de Sociologia. 26 a 29 de julho de 2011. UFPR, Curitiba, PR.
HONNETH, A. La lutte pour la reconnaissance. Paris : Cerf, 2000.
OLIVEIRA, T. de. ZEPs : efeito perverso ou componente institucional de uma dupla segregação ? In : mudanças, permanências e desafios sociológicos.Resumos. XV Congresso Brasileiro de Sociologia. 26 a 29 de julho de 2011. UFPR, Curitiba, PR.
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